“Nossa sociedade é altamente traumatizada”: Dr. Riek Machar

Falando no diálogo “Tornando a Democracia Real”, Dr. Riek Machar Teny, Vice-Presidente do Sudão do Sul, país recentemente constituído, destacou os desafios que seu país agora confronta para curar as feridas deixadas por décadas de guerra.

A reconciliação nacional estava, disse ele, entrelaçada com a boa governança que o país agora precisa, depois da recente independência. Dr. Machar Teny disse que o governo tem se esforçado na reconciliação nacional por um tempo e pôs isso no topo da agenda depois de um Acordo Compreensivo de Paz em 2005 com uma tentativa de construir um consenso entre todas as partes.

South Sudan Vice President, Dr Riek Machar: Vice-Presidente do Sudão do Sul, Dr. Riek Machar encontrando-se com pessoas do Centro de Governança de IdeM na conferência “Tornado a Democracia Real”.South Sudan Vice President, Dr Riek Machar: Vice-Presidente do Sudão do Sul, Dr. Riek Machar encontrando-se com pessoas do Centro de Governança de IdeM na conferência “Tornado a Democracia Real”.Ele admite, no entanto, que a reconciliação ainda é muito difícil, dada a longa história de 30 anos de conflito no país. O Movimento de Libertação do Povo do Sudão (SPLM) se dividiu várias vezes e, durante a guerra com as forças sudanesas no Norte, deixou o país traumatizado. O Vice-Presidente falou emocionado sobre as feridas que ficaram. Ele disse que 72% da população do país têm menos de 30 anos, nascida durante a guerra, vivendo em meio rural: “Eles não conhecem nada a não ser a violência”. Mesmo no governo e nas instituições sociais, “uma violência sutil” continua sob a superfície, rompendo em atos de brutalidade através do exército e da polícia.

Dr. Machar Teny falou de vários planos que tem posto em prática para superar esses obstáculos e restaurar a unidade do país. A reconciliação é baseada numa construção consensual através de um diálogo Sul-a-Sul e a criação de um governo de base ampla (apesar de o SPLN ter ganhado 93% dos assentos no Parlamento na última eleição, 20 assentos do governo ter que ser reservados deliberadamente para outros partidos).

Uma Comissão pela Paz e Reconciliação foi fundada para trabalhar em nível popular, mas depois de 6 anos houve muito pouco sucesso. Ao invés de deixar isso para uma instituição, todos os ministros do governo estavam agora sendo chamados a construir blocos para um plano de reconciliação, a ser implementado com a assistência da ONU. Mulheres em particular tem estado envolvidas, buscando criar harmonia em comunidade, e agora trabalham na sociedade civil e informalmente no governo.

Vice-Presidente do Sudão do Sul, Dr. Riek Machar encontrando-se com Popat Rao Pawar, líder de desenvolvimento local na conferência “Tornando a Democracia Real”, em Asia Plateau.Vice-Presidente do Sudão do Sul, Dr. Riek Machar encontrando-se com Popat Rao Pawar, líder de desenvolvimento local na conferência “Tornando a Democracia Real”, em Asia Plateau.Há também um esforço consciente de prosseguir num caminho de reconciliação com o Sudão. A relação do Sudão do Sul com seu vizinho a Norte é importante, já que compartilham longas e livres fronteiras conectadas por 15 grandes estradas, o Nilo e uma linha de trem, bem como o petróleo, a língua árabe, uma história em comum, casamentos e grandes comunidades pertencentes aos dois países, observou ele. O Sudão é também uma grande oportunidade como “um portal para nós ao mundo árabe e o Oriente Médio”, como chamou Dr. Machar Teny.

O Vice-Presidente disse que, em nível pessoal, passos audaciosos foram importantes, como quando ele mesmo pediu perdão aos que foram afetados pelo ataque de tropas sob seu comando em Bor, 1991. O pedido de desculpas foi “importante para que nós, como uma nação, possamos viver juntos”.

O discurso do Dr. Machar foi precedido pelos comentários da Dra. Omnia Marzouk, presidente de Iniciativas de Mudança Internacional. Dra. Marzouk, originalmente do Egito vivendo agora em Liverpool, Reino Unido, refletiu sobre a vergonhosa história de escravidão em Liverpool e o mundo árabe que levou a uma “ferida histórica” que ainda precisa de cura. “Estou consciente que não posso mudar a história”, ela disse. “Mas pelas memórias feridas e o legado desta história que alguns de vocês do Sudão do Sul e outros países da África ainda sofrem hoje – posso apenas ficar aqui e oferecer meus sinceros pedidos de perdão”.

(leia o discurso em inglês da Dra. Marzouk aqui)

Depois ocorreu uma apresentação de Jeanette Fourie e Letlapa Mphahlele, da África do Sul, contando sua história pessoal e altamente poderosa de conciliação. Nos esforços contra o Apartheid, Mphahlele ordenou um ataque que resultou na morte de Lyndi, filha de Ginn Fourie. Os dois depois se encontraram quando Fourie decidiu perdoar Mphahlele pelo ataque, já que ele a perdoou pela história de opressão na África do Sul. A história deles levou às lágrimas e à admiração de toda a audiência. Eles foram convidados a visitar o Sudão do Sul, onde se esperava que este exemplo pudesse apoiar os esforços de reconciliação lá. Visivelmente emocionada pelas histórias, a Sra. Fourie concluiu a sessão: “Talvez vocês me permitam falar de minha tristeza – ela deriva da inumanidade homem-a-homem e mulher-a-mulher e quando ouço histórias do Sudão do Sul, do Egito e de toda parte do mundo, meu desejo por paz é esmagador”.

Todo o segundo dia do diálogo “Tornando a Democracia Real” foi um exercício de busca espiritual e profunda contemplação, disseram os participantes.

Um reporte da sessão de abertura da conferência pode ser encontrado[em inglês] aqui.